O dicionário Houaiss define o complexo como um

“conjunto, tomado como um todo mais ou menos coerente, cujos componentes funcionam entre si em numerosas relações de interdependência ou de subordinação, de apreensão muitas vezes difícil pelo intelecto e que apresenta diversos aspectos”.

A complexidade pode ser entendida como uma sobrecarga sensorial, muita informação não organizada disponível para nossa percepção em um espaço de tempo insuficiente para que possa ser absorvida, uma profusão tão grande de elementos diversos que sua aparência parece caótica e aleatória. Uma imagem que apresente diversos elementos sobrepostos e jogados, empilhados sem nenhuma determinação, seria uma imagem complexa, em uma das acepções da palavra, ela seria de difícil entendimento pois mostraria muita informação entrelaçada, apresentada de imediato para a percepção, a busca por algum padrão ou elemento reconhecível seria uma tarefa árdua, a apreensão dessa imagem por um observador externo seria finita e difícil. Edgar Morin diz que a complexidade suporta:

“uma pesada carga semântica, pois traz em seu seio confusão, incerteza, desordem. Sua primeira definição não pode fornecer nenhuma elucidação: é complexo o que não pode se reduzir numa palavra-chave, o que não pode ser reduzido a uma lei nem a uma idéia simples. Em outros termos, o complexo não pode se resumir a palavra complexidade.”

A visão diária da complexidade de uma cidade, de uma multidão em movimento, pode fazer com que o barulho e a aparente irracionalidade do conjunto se transforme em uma experiência estética (Johnson, 2001). Segundo Greenberg “uma intuição estética é recebida, sustentada e usufruída em nome de si mesma e de nada mais. A intuição que transmite a cor do céu passa a ser uma intuição estética tão logo deixa de informar como está o tempo e se transforma simplesmente numa experiência da cor”. Ao experiênciar o complexo não devemos nos ater apenas a estética do caos, ao acaso e a aleatoriedade por eles mesmos. A complexidade mais relevante aqui descreve um todo múltiplo, que pode ser coeso e organizado, um todo advindo de multiplas relações entre diversas variáveis, pontos, unidades, e vontades. Em um ambiente aberto qualquer ponto pode se conectar a qualquer outro ponto, e deve sê-lo, diferentemente de uma estrutura ou hierarquia, que fixam um ponto, congelam uma ordem (Deleuze, 1995), um conjunto complexo é fruto de um lugar, não advindo somente das possibilidades combinatória de suas unidades, um ponto para se conectar busca padrões, ao se conectar responde com comportamentos, e no processo se metamorfoseia e se adapta. Complexidade não é somente acaso, irracionalidade, chance estatística, aleatoriedade – ainda que essa desempenhe um importante papel – e sim um todo que emerge das relações de um ambiente. 

A complexidade pode ser percebida somente como uma experiência estética, e usufruída pela sua multiplicidade formal, é muito bom intuir algo por ele mesmo, sem que esse seja o meio para informar outra coisa, ao final está aos olhos do observador interpretar. O problema é produzir a complexidade como um artifício expressivo justificado unicamente pelo desejo de expressar alguma coisa, isso traz um formalismo de falsa multiplicidade. A complexidade deveria ser no mínimo o resultado do programa, do ambiente, mais do que a vontade do autor (Venturi, 1966). Assim como o autor pode levantar a falsa multiplicidade como sua forma expressiva, ele ao contrário pode forçar uma super-simplificação, Kenneth Burke diz “nós super-simplificamos um acontecimento quando o caracterizamos do ponto de vista de um determinado interesse”, Paul Rudolph sobre as implicações do ponto de vista de Mies van der Rohe coloca que “uma característica do século XX é o fato de que os arquitetos são altamente seletivos ao elegerem os problemas que querem resolver. Mies, por exemplo, faz edifícios maravilhosos simplesmente porque ignora muitos aspectos de uma construção”. Tanto na falsa multiplicidade como na super-simplificação temos a imposição do autor sobre o ambiente. O ambiente nesse caso não funciona como uma série numerosa de relações de interdependência, mas sim de subordinação a um único sujeito, um único autor.

A complexidade colocada pelo sujeito, como um aborto de uma estrutura prévia e o enxerto de uma multiplicidade imediata e qualquer de raízes secundárias, cria uma sobre-determinação, um novo tipo de unidade que triunfa no sujeito (Deleuze, 1995). Uma multiplicidade colocada pelo autor cria uma variedade pontual, mas reforça uma determinação do conjunto, Deleuze e Guattari citam

“as palavras de Joyce, justamente ditas ‘com raízes multiplas’, somente quebram efetivamente a unidade da palavra, ou mesmo da lingua, à medida que põe uma unidade cíclica da frase, do texto ou do saber”.

O incomplexo envolve uma só idéia, abrange uma só coisa. É único, sendo o mesmo para vários individuos ou coisas, dessa forma não possui interpretações diversas, não pode ser entendido de mais de uma forma, percorrido por mais de uma visão, é algo determinado. É baseado e desenvolvido em cima de pressupostos, não mais criticados por se desdobrarem logicamente de modelos demasiadamente abstratos, usado aqui em contrário a concreto, modelos assumidos como verdadeiros, e eles próprios portadores de significados e significâncias. O único como um organismo, uma totalidade significante, uma definição atribuida a um sujeito (Deleuze, 1995). O simples, o simplório, é sozinho, é não relacionado, não se compõe de partes ou substâncias diferentes, não possui linhas de articulação ou segmentaridades, estratos, territorialidades, nem linhas de fuga. Ao ser atribuído a um sujeito, nega-se o trabalho de suas matérias, de seus estratos, e a exterioridade de suas correlações. O simples não é multiplo, não se desdobra em partes, não propõe possibilidades e caminhos, é fruto de uma estrutura. Morin diz que:

“o paradigma simplificador é um paradigma que põe ordem no universo, expulsa dele a desordem. A ordem se reduz a uma lei, a um principio”. Ainda assim Venturi bem coloca que “o reconhecimento da complexidade e da contradição (…) não nega o que [Louis] Kahn chamou de ‘desejo de simplicidade’. A simplicidade estética, uma satisfação para o espírito quando legítima e profunda, nasce de uma complexidade interior. A simplicidade visual do templo dórico é fruto das suas famosas sutilezas e da precisão de sua geometria distorcida. (…) A aparente simplicidade do templo dórico resultaria de uma complexidade real”.

O ‘desejo de simplicidade’ de Kahn vai contra a complexidade e o caos como experiência estética, como profusão de elementos de difícil entendimento pela percepção. Através de sua educação Louis Khan achava que uma nova ordem podia ser encontrada além do racionalismo. ‘Ordem’ como princípio por trás das coisas, uma vontade de existência dentro delas, uma qualidade que se inicia fora do tempo. A simplicidade de Kahn é consequência do que ele chamava de ‘ordem’, simplicidade como síntese.

A unidade, a determinação, segundo Deleuze e Guattari

“sempre opera no seio de uma dimensão vazia suplementar aquela àquela do sistema considerado (sobrecodificação). Mas acontece, justamente, que um rizoma, ou uma multiplicidade, não se deixa sobrecodificar, nem jamais dispõe de dimensão suplementar ao número de suas linhas, (…) todas as multiplicidades são planas, uma vez que elas preenchem, ocupam todas as suas dimensões”.

Uma multiplicidade real não se deixa sobredeterminar pelo sujeito ou pela unidade em uma dimensão superior, que define o conjunto ou o todo, uma multiplicidade ainda que coesa e organizada, se mantém possibilidade e ganha significado apenas na relação com outras multiplicidades, com outras pessoas. Ao interpretar uma multiplicidade, essa ganha significado para mim, esse significado não é único e fixo, ele é possível de mutações e metamorfoses sempre que a multiplicidade seja revisitada. Minha interpretação é única, pois se diferenciará da interpretação de outros sobre a multiplicidade em questão, como se diferenciará da visão de outros sobre a minha interpretação.

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